Sobre RPG de mesa e colaboração

Como a colaboração de uma sessão de RPG transcendeu os limites do faz-de-conta e chegou nas nossas vidas.

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Comecei a jogar em uma mesa de RPG no ano passado. É o maior barato. Não foi minha primeira vez, mas agora a coisa tem assiduidade: a vida pode estar atrasada em tudo, mas as noites de terça são sagradas.

A primeira coisa que me atrai muito no RPG de mesa é o contato humano. É a espontaneidade, é o olhar, é a tensão generalizada num confronto difícil e o riso absoluto depois de uma interação particularmente engraçada.

Uma coisa deliciosa dessas sessões é que há duas pessoas, o Lucas e o Bruno, que nunca haviam jogado na vida. É muito interessante observar como a pessoa vai desenvolver seu personagem e tomar contato com uma experiência nova.

Há de se convir: não se trata de uma tarefa fácil. Despir-se da vida adulta pra encarnar um anão natureba ou um monge tranqueira pode ser um pouco constrangedor — ainda mais pra quem não é desinibido. Nessas horas, cooperação é a palavra da vez. O Caio, nosso mestre, é extremamente competente no que faz e sempre sugere (a contragosto, às vezes) um caminho a se tomar.

Arte de Mark Behm

O lance é que a competência do Caio aparece mais na diversidade de momentos diferentes que a nossa aventura comporta. Tem muita mesa por aí que é porrada atrás de porrada. Não tem problema, viu? Mas a maturidade, por incrível que pareça, faz a gente valorizar o faz-de-conta e aprender que desenvolver os traços do seu personagem tem tanta graça quanto rolar um crítico pra cima de um ogro.

O outro barato do RPG é que essa cooperação que usamos para ajudar o outro a se desenvolver também se faz presente na construção da narrativa. Uma mesa de jogo é, afinal, uma história colaborativa que se torna especial através da dissonância das vozes que a compõem — e veja, dissonância é o que não falta na nossa mesa. Meu personagem é um elfo meio molecão que contrabandeava muamba na terra dele. O do Marx, por sua vez, é um paladino tiozão que vive tirando uma comigo.

Situações inusitadas não faltam nessa história. A última foi quando o paladino do Marx ergueu o anão do Bruno na frente de uma fortaleza de anões pra tirar uma. Na nossa cabeça, parecia a cena do Rafiki mostrando o Simba pra bicharada da floresta do alto da pedra. Pensa numa meia dúzia de quase-trintões se esbagaçando de rir — menos o Bruno, claro, que ficou um pouco chateado.

Fonte: Aventuras na História

A coisa mais bonita, enfim, que eu vejo no RPG é quando esse senso de colaboração transcende o faz-de-conta, dá meia volta, e nos arrebata na vida real. Aí é cachoeira, é cachaça, é beijo na boca, é bom demais.

Uma coisa que nosso grupo começou a fazer foi cozinhar. A cada semana, um de nós se encarrega da boia. Acaba sendo uma prova de amor semanal porque é um amor prático, um amor mão na massa. É um lance de querer presentear o outro com algo autêntico.

Mais do que isso, foi uma coisa que nos ajudou a desenvolver um lado das nossas vidas. A gente sempre pegou no pé do Lucas e do Bruno por terem, ao mesmo tempo, uma cozinha caprichada e uma carteirinha de fidelidade no iFood. Agora, os dois têm pilotado o fogão com mais frequência e, ó, zero reclamações da clientela. Justamente os dois que começaram a jogar recentemente: ver personagem e pessoa crescendo ao mesmo tempo por meio da colaboração é sensacional.

Fora que agora a gente corre um risco menor de ter uma úlcera do tamanho do Pará. Antes, nesse ritmo de cupom do aplicativo com 200% de desconto, era tranqueira pra baixo toda semana. Meu fígado tentou organizar um piquete uma vez, mas foi violentamente reprimido pelo Engov. Valeu, Engov.

Certo, o espaço amostral da minha vidinha não é lá essas coisas, mas não tenho como não me perguntar: pode o videogame propor uma experiência colaborativa próxima à do RPG de mesa? Jogos cooperativos existem: inclusive, fica meu protesto por mais jogos de tiozão, como A Way Out. Mas, para além do se ajudar, como podemos encontrar caminhos para humanizar experiências online? Muitas vezes, afinal, estas são extremamente negativas.

Eu não tenho a resposta agora, talvez na próxima terça me dê um estalo.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana, mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.