Sobre Drauzios, Brunas e Pokémon GO

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Com o perdão da palavra, não é de hoje que o Drauzio Varella é foda. Desde que o mundo é mundo pra mim, o Drauzio é o cara que se propõe a receber com humanidade aqueles que a sociedade rejeitou. E humanidade, sabemos, é coisa escassa no cláusuro.

A coisa boa do Drauzio, dentre tantas, é que ele não parou de travar a luta dele. Quem chega atrasado no bonde sempre tem uma oportunidade de descobrir seu trabalho e, quem sabe, se inspirar a fazer algo parecido.

Eu aproveito essas linhas iniciais pra enaltecer o doutor antes que a internet descubra algum deslize dele nos anos 70. Daí, a internet nos salva de um monstro inominável com a arma do cancelamento. Valeu, internet. Enquanto isso não acontece, pra valer, leiam Estação Carandiru. Assistam ao cabra no YouTube.

Drauzio Varella/Reprodução: Veja

No último domingo, o doutor tomou muita gente de assalto com uma reportagem no Fantástico sobre a vida de mulheres trans em presídios do Brasil. Pra quem tá do lado mais confortável da tela, assistir à peça é uma coisa reveladora de fatos que muitas vezes não queremos escarafunchar. Prostituição na cadeia, sentenças injustas, solidão. Viver é muito perigoso, mas é mais perigoso para umas do que para outras. Lembrei-me de um fato aterrador: o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos por transfobia.

Antes de tudo, a reportagem nos lembra do ocultamento dessa realidade diária. Eu trabalho bem próximo ao CDP Pinheiros, onde a Susy Oliveira é detenta. A quem não assistiu ainda, a Susy relata que estava há oito anos sem receber uma visita, uma carta, uma palavra de conforto de alguém de fora. No trecho mais famoso da peça, o médico a abraça.

Eu fiquei ali, meio bobo, pensando na dor de esquecer o que é um abraço.

Ao mesmo tempo, o Drauzio mostra outro lado em sua narrativa. Mostra um casal, uma mulher trans e um homem cis, de mãos dadas. Existe amor. Mostra as presidiárias fazendo cursos de confeitaria e maquiagem. Existe esperança. Mostra a celebração de casamento desse mesmo casal. Existe alegria.

A sacada do simpático oncologista — pois é, ele conseguiu — é que o seu “estar ali” nos obriga a um exercício ferrado de empatia. Porque empatia é pegar a nossa dor e a nossa delícia e projetá-las na outra. Aí eu concordo muito com o Anderson França: mais do que aplaudir o Drauzio, eu quero ser o Drauzio. Eu quero ir pra rua, eu quero fazer algo. Não quero me reduzir à militância de internet: até porque, convenhamos, já deu pra ver que deu bastante errado.

Foi nesse caldeirão de sentimento que eu recebi de nosso ex-colega Pedro Vieira a notícia de um crime bárbaro.

Bruna Andrade/Reprodução: Start UOL

Na madrugada da zona norte de Florianópolis, Isabelle Colstt e Bruna Andrade, mulheres trans, ambas com 30 anos de idade, foram assassinadas a golpes de faca. Novamente, veio-me à cabeça: o Brasil lidera o ranking de assassinatos por transfobia.

Como eu trabalho com videogame, a notícia chegou a mim porque a Bruna jogava Pokémon GO e era benquista na comunidade de Floripa.

Reprodução: Critical Hits

Eu fiquei pensando na vida da Bruna. Uma pessoa com uma idade próxima à minha, com um interesse em comum. Fiquei pensando em qual era o Pokémon favorito dela. Fiquei pensando nos amigos que ela fez através do jogo.

Fiquei pensando nos abraços que ela deixará de receber. Tudo porque o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos por transfobia.

Como o Drauzio, a comunidade local de Pokémon GO saiu às ruas e foi fazer sua parte. Decidiram organizar uma homenagem à Bruna. Irão pintar grafites na cidade em sua homenagem para que se tornem PokéStops dentro do jogo.

Para realizar o que pretendem, abriram uma vaquinha virtual para custear o valor das tintas e mão de obra. A meta inicial era de R$ 1200,00. À data de fechamento de meu texto, a campanha já havia arrecadado mais de 1600 reais.

Reprodução: Critical Hits

Ainda existe empatia no Brasil, ainda existe amor. E amor não se cala jamais. Que construamos um país onde as minorias são respeitadas, não curvadas à força.

Que consigamos extinguir a homenagem fúnebre, pois sempre haverá a oportunidade da homenagem em vida.

O Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos por transfobia.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana, mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.