Sobre aquilo que todo mundo está falando

O coronavírus veio para mudar nossa estrutura social. A forma como eu jogo videogame se transformou também.

Artigos

Ninguém aguenta mais ouvir falar no coronavírus: eu incluso. Outro dia mesmo, liguei a TV e fiquei na maior alegria porque achei o Canal do Boi reprisando um leilão. Tudo menos a covid-19.

Não posso, porém, ignorar os fatos. Ninguém pode. O vírus é real, letal e veio para mudar nossa organização social. Basta ouvir o Átila Iamarino falar. Barbaridade, o que o sujeito tem de inteligente, tem de mensageiro de más notícias. Parece setorista do São Paulo.

Anteontem (3), o doutor em microbiologia pela USP deu uma entrevista à Folha de S. Paulo em que falou mais uma coisa de arrepiar: teremos que alternar períodos de quarentena e normalidade por até dois anos.

Átila Iamarino / Reprodução: TV Cultura

Eu logo me peguei pensando na minha reação. Confesso, sou um sujeito bem caseiro. Curtir a solitude no meu cantinho é uma delícia, não deveria ser incômodo. Conversando com o Caio, mestre de RPG da minha mesa e grande entusiasta do próprio sofá, chegamos à conclusão de que poder estar em casa é muito diferente de ter que estar em casa.

A falta que faz um abraço e um beijo, valha-me. Por mais caseiro que o sujeito seja, é tão bom ter a opção de ver e tocar quem amamos. Aí, rapaz, eu comecei a sentir os efeitos da quarentena, meio como aquele meme que conta os dias de isolamento. Eu me peguei pensando que, em algum momento, ia começar a roer o reboco das paredes de casa. Uma versão menos asseada e menos poética da Rebeca, de Cem Anos de Solidão.

Pra não gastar os dentes e a estrutura da casa, comecei a dedicar uma parte do meu tempo livre ao videogame. Comecei pelo Pokémon: coloquei na minha cabeça que ia completar a minha PokéDex nem que fosse a última coisa que fizesse.

Nessas horas você vê que a mudança de comportamento não é só sanitária, mas psicológica também. Eu nunca fui um sujeito obstinado. Sempre desisti de completar meus álbuns de figurinha. Na primeira dificuldade em relação a algo novo, eu desanimava.

(E vamos falar a verdade aqui: desistir é gostoso demais).

Passei duas semanas caçando Pokémon na área selvagem do Shield. Tanta coisa que eu tinha deixado passar com meu desânimo e minha desatenção. Aquelas horinhas que eu dedicava ao Switch não eram só uma distração, mas uma atividade seríssima.

Acabou que eu peguei quase todos os bichos que eu poderia pegar na minha versão do game. É só uma questão de trocar criaturinhas com os amiguinhos que têm o Sword para receber um respeitoso e muito útil “parabéns” do game. Mas o parabéns de um simulador de rinha de galo ainda não contempla a ansiedade da quarentena. O reboco da parede me pareceu apetitoso novamente.

Nesse momento, me deu o estalo. A situação que vivemos já mudou todas as esferas do nosso convívio social. O videogame não foge dessa seara, ora.

Eu sempre fui bem dado ao single player. O lançamento de Breath of the Wild foi meu auge: aquela coisa de contemplar o mundo e construir memória e todo um blábláblá que eu escrevi aqui era a fantasia introspectiva pela qual sempre ansiei.

No momento em que estamos, nada disso faz sentido pra mim. Eu preciso encontrar formas de convívio e diversão com quem amo para manter a cabeça no lugar.

Ontem, uma das soluções bateu à porta. Meu amigo Thommaz criou uma gambiarra, tão tupiniquim quanto eficiente, para jogarmos os minigames da série Jackbox. Em um programa de chat — usamos o Jitsi, mas basta ser para PC e ter compartilhamento de tela — conversávamos enquanto ele transmitia a tela do jogo. Daí, bastava acessarmos a sala do game pelo celular para jogar.

Assim eu passei umas cinco horas ontem jogando um bocado de joguinhos bem-humorados de desenho. Dei tanta risada que os vizinhos do prédio até reclamaram. Valeu a pena.

Na minha coluna do dia 1º de março, eu me questionei sobre como o videogame poderia aliar a criação de narrativas com o aspecto social que o RPG de mesa traz. Pode ser um primeiro passo, mas sinto que os tempos de quarentena têm trazido à tona o lúdico que habita em todos nós, daí o videogame vira um vetor dessa graça.

Que voltemos dessa loucura toda dando boas risadas e jogando muito.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana, mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.